O mundo não será mais o mesmo, a moda não será mais a mesma

A frase que o biólogo especialista em virologia, Átila Iamarino, disse na última semana em sua participação no programa Roda Viva, nos marcou tanto, mas tanto, que virou uma pauta inteira: “Após o coronavírus, o mundo não voltará a ser o que era”.  

Os fatos históricos costumam levar um tempo para mostrarem o seu potencial de revolucionar a vida das pessoas. As pessoas que viviam durante a primeira guerra mundial, por exemplo, não pensavam “Nossa, estamos no meio da primeira guerra mundial que o mundo já viu, isso mudará tudo” – tanto é que na época, o evento era chamado apenas de Grande Guerra, e só ganhou o nome “Primeira Guerra” muitos anos depois, após estourar a Segunda Guerra e ambos os eventos serem estudados pelos historiadores.  

Mas no caso do coronavírus é diferente. Já conseguimos notar diferenças tão grandes no mundo,  que seria impossível imaginar que tudo isso será passageiro. Uma coisa é fato: o mundo que existia em dezembro de 2019 já não existe mais. E nós somos contemporâneos de um acontecimento que irá dar novos rumos à humanidade. 

E não somos só nós e o Átila que estamos falando isso: Para a ONU, a pandemia é o maior desafio que a humanidade já enfrentou desde a Segunda Guerra Mundial. Se a gente for analisar esse exemplo, veremos que o mundo nunca mais foi o mesmo depois da Segunda Guerra. Então, quais mudanças e revoluções podemos esperar durante e depois do coronavírus? E a moda, como ficará com isso?  

Certamente, a maneira como nos relacionamos com o online já mudou completamente. Pra muita gente, a quarentena serviu para perceber que a internet não é feita apenas para dar scroll eterno nas redes sociais: ela também pode ser uma ótima ferramenta para trabalhar, nos manter próximos de quem a gente ama, e consumir as coisas que precisamos no nosso dia a dia. A conexão online nunca foi tão valorizada, e isso provavelmente se manterá. 

E aliás, já tem tempo que o mundo digital vem perdendo o seu valor real de conexão, né? Mas agora, estamos resgatando isso. Nas últimas semanas, choveram relatos de pessoas que não tinham o costume de ligar para os pais ou para os amigos, e agora tem feito mais chamadas de vídeo. E as diversas demonstrações de cuidado que vimos com os idosos e pessoas mais vulneráveis?! É de renovar as esperanças na humanidade, né?  

Nossas relações de trabalho também já mudaram. Empresas ao redor do mundo que mantinham custos enormes com deslocamento de funcionários, escritórios físicos e viagens para conferências e cursos, tiveram a oportunidade de testar um modelo novo de trabalho, que não apenas funciona muito bem, como também pode ter resultados melhores, é econômico e benéfico para o meio ambiente e para a qualidade de vida das pessoas (e a gente comemora!).  

E claro, isso muda totalmente a dinâmica na nossa amada área, a moda. Os setores de criação estão parados, mas isso não fez com que o trabalho criativo parasse, não é mesmo? Para muita gente, ele até aumentou. As pessoas continuam conectadas, tendo ideias e criando a todo instante. 

Estamos dando mais valor ao famoso “ócio criativo” e à necessidade de nos darmos tempo para consumir livros, filmes, séries, e tudo aquilo que alimenta o nosso repertório cultural, ao invés de ficarmos tão fissurados em produzir a cada segundo. E olha só: sem a barreira do físico, não existem limites para a co-criação e o trabalho em conjunto. É hora de abraçarmos a oportunidade de fazermos conexões ao redor do mundo!  

Nosso modo de consumir moda já mudou, e tudo indica que mudará para sempre. Agora, as pessoas tem repensado o seu consumo por uma questão emergencial, mas crises nos levam a reflexões, e reflexões trazem revoluções. E quando falamos de modo de consumir, não falamos apenas sobre o crescimento da compra online, não (que sim, já é uma realidade).  

Falamos também do uso e do sentido que os consumidores dão para a roupa; sobre como criamos desejo numa peça do vestuário, e se desejo ainda definirá as escolhas de consumo das pessoas, ou se devemos pensar mais em autocuidado, essência e valor; sobre modo de produção e modelo de negócio. 

Tudo isso já está se transformando – muito antes do surgimento do coronavírus, vale ressaltar! É por isso que enxergamos que o momento de pausar e refletir é essencial, e tem tudo para ser muito positivo para a indústria, que já precisava se reinventar.  

Vamo combinar que a moda já não tem acompanhado a velocidade de transformação da sociedade há um tempo, e tem se tornado cada vez mais obsoleta. Quem ainda vê sentido em trocar de armário a cada estação ou em consumir novidades a cada semana? Quem ainda vislumbra o luxo e a ostentação das semanas de moda, que aliás, seguem o mesmo modelo há décadas, e ainda proíbem celulares nos desfiles em plena era digital? 

Será que o motor criativo da moda ainda vem de Paris e das grandes grifes, ou está muito mais concentrado nos negócios locais, cheios de valor cultural, de verdade e de vontade de fazer diferente? 

O modo de produção atual, que já se mostrava devastador para o meio ambiente, mostrou também as suas falhas estruturais. A gente teve provas de que concentrar a produção mundial em um único país (a China) não é logisticamente e economicamente tão eficiente assim, e repensamos a viabilidade de uma peça passar por 4 países ou mais até chegar ao consumidor final. Uma mudança de rumos na moda já era urgente, mas talvez a crise atual nos faça acelerar as coisas.  

As questões são infinitas, e as respostas definitivas só virão com o tempo, é claro! Mas não podemos esquecer que nosso papel nessa hora não é mais de espectadores da história. Somos nós que iremos questionar, buscar as respostas e tentar entender todas essas mudanças que estamos vivendo. E cabe a gente se perguntar: que moda queremos ver amanhã e como podemos construí-la juntos?  

Comentários

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    EVANIA MARIA SOUZA LUZ FREITAS
    11/06/2020

    A moda se tornou insensível.
    A busca fervorosa pela novidades que não passava de réplicas deram vez a coleções frias, sem paixão e sem essência. A ordem era fazer o que vende sem entender ou respeitar por qual motivo alguém vai comprar.

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    EVANIA MARIA SOUZA LUZ FREITAS
    11/06/2020

    A moda estava se tornando insensível. A busca fervorosa por novidades que não passavam de réplicas, deu vez a coleções pobres de essência. O que importava era fazer o que vende sem entender por qual motivo alguém vai comprar.

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